segunda-feira, 26 de março de 2012

Recordação




Eu me lembro bem.
De como você me amava.
De como você me adorava.
De como você me beijava,
noites a fio.

Eu me lembro bem.
De como você me abraçava.
De como você suspirava.
De como você sussurrava,
a perder o brio.

Eu me lembro bem.
De todas as palavras macias.
De todas as verdades duras.
De tudo o que nos causou medo.

Eu me lembro bem.
Do modo como me sorrias.
Antes de ouvir dizer nas ruas
infâmias de nosso segredo.

Me lembro de ouvi-lo gritar impropérios.
A raiva e a angústia não eram mistério.
Eram alavancadas pelo preconceito.

Me lembro, mirando seus olhos sérios.
Parece que a flor se fez deletério.
Justo por amarmos do nosso jeito.

Me lembro do modo como chorei,
ao perceber que achavas tu
ser eu quem lhe causou tal dor.

Me lembro do modo como implorei,
para que não deixastes tu
pisarem sobre nosso amor.

Mas me lembro também que de nada adiantou.
E que você se foi.
E que pareceu ter se esquecido de todas as nossas lembranças.

Me lembro hoje do que um dia fomos.
E me lembro da amargura que é perceber
que nunca o seremos mais.

Seria mais fácil se eu pudesse não me lembrar.



sábado, 24 de março de 2012

Ê, Nenê!




Aquele que me chama de “Nenê”.

Aquele Pequeno.

Aquele grande homem.

Aquele que me acordava botando pratinhas em minha mão.

Aquele que jurava que só havia me acordado pra avisar que haviam tentado me despertar a poucos instantes e ele não deixara.

Aquele que me mandava ir à esquina, pra ver se ele estava lá,

tomando um sorvete ou comendo um lanche no Geléia.

Aquele que nos dá um minuto pra terminar uma briga, e mais outro pra começar uma outra de arrancar cavaco.

Aquele de quem roubaram o carneiro e cortaram os quatro pés.

Aquele que não se importava quando eu acabava com seus Yakults.

Aquele pra quem eu pedia o teclado do computador emprestado, pra brincar de escritório, prometendo não estragar.

Aquele que não ralhou comigo quando eu devolvi o teclado, faltando três teclas, e com o fio desencapado.

Aquele que deixava eu pegar suas ferramentas de agrimensura, pra brincar de escavação (e detonar com sua parede).

Aquele que parece nunca se irritar, salvo casos em que soltamos “puts” em sua presença.

Aquele que às vezes pergunta por que é que brigamos tanto, se nunca combinamos antes.

Aquele que me apadrinhou.

Aquele que muito me ensinou.

Aquele que me enchia o saco, me falando o dia todo que eu era o genro do Chico Pé-de-foice.

Aquele que, como poucos, não torceu o nariz, quando viu que na verdade eu não gostava de meninas.

Aquele que eu nunca ouvi gritar.

Aquele que odeia o desentendimento.

Aquele que, mesmo sem querer, teve treze filhos:

Dariane, Ariane, Glaucione, Maria Amélia, Melissa, Ana Paula, Amanda Évelin, Michel, Franklin, Guilherme, José Henrique, Rafael e Luiz Gustavo.

Aquele que faz uma diferença danada na vida de tanta gente.

Aquele que nos chama de “Nenê”.

Aquele Pequeno.

Aquele grande homem.

Força Dominguinho!

Não quero saber de nada.

Quero meu carneiro em pé outra vez!

Te amo!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Por um fio




Ama-me assim.
Como se ama um pedaço de carne.
Degustas, deliciado, meu corpo inteiro,
por puro prazer.

Então, pra que resistir, se o sentimento que lhe devoto
até hoje não se fez recíproco?

Sei bem que o ardor físico me anestesia,
de maneira enlouquecedora, por sinal.
Mas o problema é que a dor sempre volta.
E a cada volta, mais gigantesca.

Destruidora.

Cruel.

Logo, o que mais me resta,
senão tentar anular-me de seu mundo?

Espero que seja em breve, antes que
minh'alma se parte em zilhões de nanopartículas.



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

É do babado, bonita!



A vida de um gay numa cidade pequena pode não ser fácil. Mas hoje, eu, por experiência própria, acho um tanto quanto irônica, em alguns aspectos. Enquanto homoafetivo assumido, há cerca de dois anos, fico embasbacado ao perceber que numa cidadezinha de 18 000 habitantes existam tantos homossexuais, e como alguns deles tem suas ações tão influenciadas pelo "dominante mundo hétero".

É certo que, em sua maioria, os gays daqui vivem encubados. Ainda não acharam a tão sonhada saída do armário, e fingem ser os machinhos com sex appeal. Porém, o absurdo é eles precisarem ofender outros gays, que se sentem confortáveis com outro estilo de vida, pra provarem sua "pseudo-heterossexualidade". Pra fingir algo, não é necessário desrespeitar ninguém. Parece, no fundo, uma inveja por esses outros terem conseguido se libertar. Sei bem que o monstro desprezível que é o preconceito, acaba por ditar muitas dessas ações, mas daí a cometer uma ofensa, no fundo, contra si próprios, é uma periclitância!

O fato é que, a meu ver, há muito ainda o que conquistar, com a militância LGBT. E enquanto certos homoafetivos continuarem com esse comportamento, aí é que seremos verdadeiramente uma minoria, ainda menos ouvida nos pleitos. Então, como resolver esse dilema?

Deixando a modéstia de lado, nos últimos dois anos, só fiquei sozinho quando quis. E tive tanto relacionamentos efêmeros, quanto, de certo modo, duradouros. E a mim, tanto fazia se os caras eram afeminados, masculinizados, discretos, espalhafatosos. Isso tudo são esterótipos construídos culturalmente. E é fato que temos uma cultura preconceituosa e limitadora. Nos meus relacionamentos o que me importa é que eu me sinta bem, e que me respeitem à minha maneira, com as devidas reciprocidades, claro.

Como seria tão mais simples se pudéssemos das um banho de alteridade no mundo...


PS: usei das terminologias "homoafetivo", "gay", "homossexual", porque pra mim o desrespeito pode estar no teor com o qual as palavras são escritas, ou ditas, e não necessariamente no vocábulo em si.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Olelê, olalá!




Até que dessa vez o tal Rei Momo me foi mais generoso.
E fez do meu carnaval um delicioso desafogo.
A Colombina acabou por seduzir um Arlequim e um Pierrot.
Mas não sem antes ter sido rejeitada por trocentos mascarados.

Cinco dias de puro frisson.
Que não se repetem, antes de outros 360.
Como não aproveitar ao máximo?

Rodeado de pessoas lindas,
amigos de longa data,
e o torpor totalmente tentador da bebida e do sexo.
Deus! Impossível resistir!

Analogias à parte,
esse meu fim de fevereiro foi um daqueles momentos ímpares.
E serviu mesmo como um divisor de águas,
um rito de passagem para um novo desafio.

Como sobreviver ao maravilhoso resto da minha vida.
E como não enlouquecer com a espera da próxima folia.

Agora sim acredito que 2012 começou.

Mesmo sem dizer




O olhar que me ludibria.
O encanto que se revela, em cada traço.
A careta, enquanto dormia.
A vontade de me perder num eterno abraço.

De prazer te fazer sorrir.
E medir o contorno inconstante de nossas mãos.
E jamais te deixar partir.
Perceber que os momentos de ardor nunca foram vãos.

E significaram mais do que apenas toque.
A julgar pelo seu jeito irritadiço, ao sair da cama.
Às vezes, depois da transa, quão o meu choque.
Ao ver você, entre lágrimas, dizer que me ama.

E então eu lhe devotava todo o amor, mesmo sem dizer.



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Expecto Patronum!



E de novo
aquele doce amor de outrora
me toma outra vez.

Me fazendo lembrar de tudo.
Todos os suspiros de adolescente.
Todos os telefonemas infindáveis.
A contagem regressiva que até hoje não findou.

Ressurge, esse amor,
de uma forma comedida.
Mais maduro, atencioso.
mesmo cauteloso.

Não por medo.
Mas apenas por cuidar
pra que não soframos mais.

A espera é sufocante.
A distância, uma tortura.
E olha que nem existe uma faceta masoquista em mim.

Não demora, ainda te cobro aquela promessa,
sobre uma certa praia.