segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Homenagem



Ketlen é uma amiga muito especial.
Com seus vinte e poucos anos
(três, se não muito me engano),
seus cabelos negros como o breu,
e seus olhos castanhos,
conquistou meu coração.

Ela é baixa, de uma altura compacta.
É fofinha, e tem um sorriso lindo,
de uma forma luminosa.

É teimosa como uma porta.
Orgulhosa como um pavão.
E impetuosa.
Não compre uma briga com ela,
se pretende ter filhos um dia.

Mas o que mais me marca, em relação a ela
é sua total entrega.
Ela sempre está ali, quando preciso.
Totalmente prestativa.

Seja pra me dar a mão em uma emergência de trabalho,
ou chorar comigo, quando sofro de alguma desventura amorosa.
E olha que são várias.

E como ela corre!
Corre pra conseguir criar o filho.
Corre pra conseguir seguir com a vida.
Corre com seu amigo maluco,
por uma lombada eletrônica,
em uma infame tentativa de contornar
a dor de uma perda.

E eu que achava que aquele marcador sairia mesmo do zero.

Amo-a, simplesmente.
Apenas por existir.

domingo, 4 de setembro de 2011

Nostálgico


Impreciso.
Impreciso e aluado coração.
Que anseia por esquecê-lo, mas não consegue.

Expressiva.
Expressiva e exacerbada a emoção.
Quando me vem as lembranças, do mundo que tu trouxestes

Que tu trouxestes contigo.

Pra acalentar o meu colo,
e fervilhar meu desejo.
Fazer-me esquecer do prumo
e ultrapassar o gracejo.
Intensos lábios febris
se entregando, num beijo.

Ha!
Quisera eu poder esquecer-te assim
como se esquece de uma valsa de pouca fama.

Embotarei então meu coração
num desafogo solitário.
Até que meu amor por ti mofe.


Sozinha



Emerenciana agora estava ali,
sentada à mesa de seu escritório,
bebericando o peso das palavras mortas,
juntas ao café amaríssimo.

Jocasta se fora,
levada por um furacão do Norte da América,
em sua viagem sem fim.

Emerenciana jamais imaginaria que sua finitude estivesse tão próxima.

- Rosas ou madressilvas? - Jocasta perguntava, em meio a carinhos - Que flores enfeitarão nosso quarto de núpcias?
- Jocasta - Eme dizia, em pensamento, e em tempo real - Jocasta será a flor de meus sonhos.

Eternamente.

Pedro e a pedra



Era Pedro um pescador.
Estava ele à beira do Rio Guaíba
pescando peixe piranha
pra desafogar preocupação.

Há cerca de vinte dias está fugido.
Com a polícia de Itariti em seus calcanhares.
O último refúgio acolhedor fôra a fazenda
da tia de 3° grau. Nha Laureta.

Mas os perigos das rondas policiais
o fizeram retomar as andanças.

Agora ele habitava uma caverna antiga,
morada de raposas do campo,
que Pedro já emboscara e degolara,
pra saciar a fome.

Todos esses reveses por conta de uma infeliz atitude.
Estar apaixonado pelo filho do juiz.

Em suas reflexões, Pedro interloutava consigo mesmo,
ou com a lua, ou com uma pedra:

- Estou a cometer um crime?

E a pedra não respondia.

E Pedro permanecia ali.

Pedro e a pedra.
Fugindo do mundo, por não lhe deixarem viver.

Mudando a ordem dos fatores



Sou brasileiro, de estatura mediana.
Gosto muito de Joana, mas Joelma é quem me quer.

Noites e noites a fio, passei à espreita,
cantando, ao primeiro sinal de movimento,
com o acompanhamento do violão,
à Janela de Joana.

Mas ela nem me dava bola.
Era Joelma quem ralhava comigo, no outro dia de manhã.

É certo que Joelma também é graciosa.
Tem seus lábios fartos,
a pele de um tom moreno, quase âmbar,
e era bem sapeca na cama.

Sim, já transei com Joelma.
Mas foi com Joana que fiz amor.

Pena que as duas tenham trocado a ordem dos fatores
em seu jeito de sentir.


Desabafo de um florista



Meu Deus!
Que tempo é esse em que falar de flores é quase um crime?
Se entro em um bar e começo a falar de begônias e cravos,
ao invés de me gabar do mais novo software,
ou questionar sobre ações da bolsa e futebol,
sou quase expulso!

Mas não me envergonho de ser florista.
E nem de ser avesso às tecnologias.
Sei que, quando eu morrer,
não serão as micro-telas de ledge
que enfeitarão meu túmulo.
E sim, as rosas.

Meu namorado Bento que não me ouça, mas
com elas, até amenizo o odor de seus pés descalços,
quando chega do treino diário.

- Como estão as orquídeas hoje, Nicolau? - me perguntam.
Respondo:
- Estão lindas! Cuido delas como se fossem filhas minhas!

No que depender de mim, tudo são flores, com certeza.

sábado, 3 de setembro de 2011

João Brasileiro



João Brasileiro já não sabe até quando mais suportará.
Olhando os transeuntes, percebe nitidamente as sutis diferenças
entre as pessoas.

Um piercing aqui, um cabelo pintado acolá.
Tatuagens de rena, tranças de raiz,
cabelo chanel.

Mas a principal diferença não se percebe
ao lampejo do olhar.
As nuances da alma.

João Brasileiro se enerva, ao se obrigar a
esconder-se de si mesmo.

Com dois filhos pra criar,
uma esposa que não ama
e um desejo compulsivo,
que o faz sentir algo,
como se despejassem despejassem alvejante em suas artérias.

João Brasileiro não sabe mais
se conseguirá refrear seus impulsos